Alimentos equilibrados

O valor da alimentação não deve ser calculado apenas por um índice térmico (conteúdo de calorias). Sabemos que a alimentação de grande conteúdo de calorias não é a mais sã, mas sim aquela que contiver, no mais alto grau, o estado natural dos alimentos e que limitar, o mais possível, o consumo de alimentos animais. Da mesma maneira que o alimento natural, por exemplo uma maçã, uma noz, umas  gramas de cereal, é uma combinação harmonicamente equilibrada de matérias alimentícias, activas e vivas, assim também deve conter a nutrição total do homem tudo o que for necessário para o organismo numa proporção harmónica. Se se procurarem todas as matérias necessárias em quantidades suficientes e conforme a uma relação imposta pela mesma natureza, conseguir-se-á a saciedade e a satisfação total do apetite. Uma alimentação defeituosa ou unilateral em qualquer sentido dificilmente produz a sensação de saciedade, porque o organismo está sujeito à lei do mínimo de Liebig. Se houver na alimentação uma substância em quantidade insuficiente, como, por exemplo, uma vitamina ou um mineral, neste caso o organismo toma apenas a quantidade de proteínas e de gorduras (que porventura abundem na dita alimentação), na proporção com o volume da substância insuficiente.

Não é uma alimentação rica em calorias o objectivo digno dos nossos esforços, mas sim a alimentação suficiente, harmónica e equilibrada, em que todas as substâncias necessárias se encontram na proporção mais natural possível. É fácil compreender que o organismo, mediante uma alimentação o mais natural e regular que se possa dar, necessita de quantidades consideravelmente menores e que a alimentação equilibrada facilita uma força de conservação da saúde, cuja importância ainda não conhecemos suficientemente. A alimentação mais próxima da natureza cria homens tranquilos, ao passo que toda a forma de alimentação permanente unilateral dá lugar a homens inquietos, sempre esfomeados, insatisfeitos, em busca inacabável de algo indeterminável.

 Alimentos «puros», alimentos desnaturalizados

 Quando actuamos num alimento natural com métodos físicos, químicos, processos que dantes se qualificavam de «enriquecimento» ou de «depuração», mas que hoje reputamos de «desnaturalização», obtêm-se produtos energéticos puros e quase sempre mais concentrados, como a farinha branca, o açúcar branco, o arroz sem casca, o azeite refinado e as gorduras em forma de margarinas, as conservas, o sal de mesa, mas tudo isto privado quase totalmente das suas características biológicas eficazes e sãs. Por outro lado, também não devemos esquecer que estes produtos da indústria moderna, por causa da sua excelente capacidade de duração, de armazenagem e de transporte se tornam insubstituíveis para a formação de reservas e fornecimentos distantes. Mas, de qualquer modo, constituem alimentos mortos, que necessitam de ser completados forçosamente com alimentos frescos e vivos, isto é, com frutas de toda a espécie, farinhas de cereais, nozes, saladas, etc.

Perigos da excessiva pureza

Vamos encontrar o mesmo problema na elaboração de medicamentos. Também se apresenta aqui a questão seguinte: possui, porventura, a combinação de substâncias naturais ou de substâncias puras isoladas o maior poder curativo?

Enquanto que a investigação analítica nos levou no campo da técnica para avanços que mal se suspeitavam, sobretudo na obtenção de novas matérias-primas e elaboradas, nem sempre tivemos sorte na medicina e na alimentação com matérias isoladas e sintéticas. Com os métodos dos diversos ramos das ciências naturais, desde o descobrimento da morfina, vêm-se analisando as drogas e os efeitos dos diversos factores que procuramos expor com a máxima exactidão possível. Chega-se, deste modo, aos quadros dos efeitos das substâncias puras, que possuem indiscutivelmente a vantagem da dosilicação exacta, mais tempo de conservação e resultados mais equilibrados. Mas com frequência se juntava a isto uma maior intolerância, maior toxicidade e pior solubilidade, pelo que era preciso buscar primeiramente um solvente orgânico adequado. Com respeito à solubilidade, diga-se de passagem que se chegou a pensar seriamente se a insolubilidade na água e a solubilidade em dissolventes orgânicos não seria uma etapa prévia para a acção cancerígena da substância. Com a euforia causada pela descoberta e obtenção de substâncias puras não se prestou a devida atenção ao estudo do efeito da planta na sua totalidade. O descobrimento da matéria activa principal e o seu isolamento preenchiam o imediato objectivo terapêutico. Por isso, em princípio, desprezou-se toda a substância «complementar».

 Exemplo dos princípios activos da digital

 Exemplo clássico de investigação sumamente analítica e diferenciadora é dado pela distribuição das substâncias activas nas folhas da digital purpúrea. Primeiramente, extraíram-se das lolhas dois glicósidos, A e B, dos quais, por hidrólise, se obtiveram os glicósidos digitoxina, gitoxina e gitalina, que demonstraram uma forte acção cardíaca. De novo, mediante a hidrólise de substâncias glicosídicas, chegaram a isolar novos princípios activos, que também produziram efeitos cardíacos. Julgava-se então e esperava-se ter encontrado nos produtos finais as substâncias mais eficazes para os tratamentos do coração. Demonstrou-se, porém, que o efeito cardiotónico se reduzia, à medida que se iam efectuando as hidrólises, chegando-se, finalmente, à conclusão de que nem sequer os glicósidos completamente isolados possuíam o maior efeito curativo, mas que a simples tisana das folhas da digital conseguia resultados mais satisfatórios, conforme já tinha vindo advertindo durante anos.

Com isto começou-se a considerar que as «substâncias complementares e inertes», a princípio passadas por alto, deviam tomar parte nos efeitos, e provou-se o papel importante desempenhado pelas substâncias anexas análogas ao sabão (saponinas) e pelos sais de cálcio no efeito conjunto.

O todo é mais eficaz do que as partes

 Mediante tais experiências chegámos finalmente ao conhecimento de que as nossas grandes esperanças de superar a natureza, mediante a obtenção de substâncias puras, não se podem realizar em muitos casos e que, pelo contrário, a natureza criou substâncias activas e alimentos concentrados tanto nas nossas plantas medicinais, como nas frutas, verduras e legumes, nas quais cada factor conserva uma proporção maravilhosa que é a mais favorável para o nosso organismo. Temos de regressar àquela verdade, puramente intuída, de que toda a planta alimentícia ou medicinal constitui uma individualidade e que deve ser estudada e empregada como tal.

Confiemos pois nas velhas experiências, cuja realidade a ciência volta sempre a comprovar, de que o produto natural completo é mais activo do que qualquer dos seus compostos isolados.

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