Experiências significativas

 O efeito da substituição de alimentos crus ou frescos por alimentos cozidos foi muito discutido e levou a grandes divergências e a normas de nutrição bastante extremadas e estritas. Especialmente, causaram notável impressão os ensaios sobre comida cozida, dando lugar a numerosas comprovações.

Posição eclética

 Não podemos deixar de reconhecer que a panela na cozinha não trouxe só males, mas também vantagens. Mediante o processo da cocção puderam aproveitar-se, pela primeira vez,numerosos produtos naturais para a alimentação humana, o que implicou uma considerável ampliação da alimentação básica. A cocção facilita ao intestino a absorção dos alimentos e evita-lhe assim parte do seu trabalho, ou é a única maneira de lhe fazer digerir um alimento desse tipo. A panela pode indubitavelmente ostentar um certo significado «cultural», porque contribuiu para ampliar as possibilidades vitais humanas e, portanto, de maneira decisiva para o processo cultural.

O abuso do seu emprego, isto é, a substituição do consumo de alimentos crus pelo de alimentos cozidos, levou, não obstante e de modo inegável, á uma série de consequências prejudiciais. A aplicação do calor destrói, na realidade, não só certas vitaminas, como também os fermentos e as substâncias aromáticas convenientes para a digestão. E trata-se de componentes da alimentação dos quais não podemos prescindir para a conservação da saúde.

Efeitos do oxigénio no interior do intestino

 Os fermentos que os alimentos vegetais consumidos ao vivo contêm são conservados praticamente no intestino e desempenham serviços especiais no processo digestivo. Assim,por exemplo, os chamados fermentos oxidantes fixam o oxigénio do ar que é tomado continuamente com a comida, e depois não pode permanecer como tal no interior do intestino. As bactérias intestinais realizam na ausência do oxigénio o metabolismo com 1/25 das calorias de que necessitariam sob os efeitos de uma maior oxigenação. Depois de aturadas investigações, chegaram à conclusão de que com um regime alimentar em que predomina a carne e sob os efeitos do oxigénio sumamente abundante, ainda no recto, as matérias corantes biliares dão aos excrementos o seu corrente colorido pardo, ao passo que, quando o oxigénio falta no intestino, devido à alimentação vegetal crua, a deposição apresenta uma cor amarelada clara. Disto se pode concluir o efeito deste fenómeno no homem, e embora não se tenha investigado, pode afirmar-se como certo que «uma atmosfera no interior dos intestinos sem conter oxigénio permite uma considerável redução na quantidade de alimentos sem que, por isso, o homem fique mal alimentado». Por isso, um regime rico em alimentos vegetais crus constitui um sistema de nutrição conservador e tónico, pelo menos no que diz respeito ao intestino.

Por outro lado, é logicamente forçoso que um regime de carne cozida e, por consequência, com um interior intestinal rico em oxigénio, no qual as bactérias intestinais utilizam 25 vezes mais as energias para as suas próprias necessidades, se produza o contra-senso de que o homem alimente antes as suas bactérias intestinais do que se alimente a si mesmo.

 As bactérias intestinais

Mas além deste assombroso esbanjamento, torna-se claramente evidente o prejuízo causado, quando se pensa que não é de modo algum indiferente que as bactérias intestinais efectuem o metabolismo com oxigénio (aerobiose) ou sem ele (anaerobiose).

Tanto os produtos originados na digestão dos alimentos como os procedentes do metabolismo bacteriano são completamente distintos, conforme o interior do intestino tenha falta ou abundância de oxigénio, dependendo além disso de que se trate de bactérias intestinais normais (colibactérias) ou anormais e degeneradas (paracoli e outras). Actualmente sabe-se, depois de muitas experiências realizadas neste sentido, que desde há muito tempo o homem devido a sua alimentação habitual apresenta no seu intestino uma abundância anormal de bactérias, o que leva à conclusão de que a sua alimentação é forçosamente defeituosa. A introdução de bactérias intestinais normais vivas é um tratamento utilizado desde há muito tempo na medicina prática, porque se verificaram com ele curas de reumatismo, de eczemas e de anemias.

Como um metabolismo intestinal de desenvolvimento defeituoso se converte numa causa de intoxicação (e hoje considera-se frequentemente em medicina que o intestino grosso pode originar uma infecção focal), só por isso é evidente até que ponto tudo depende de uma alimentação realmente sã. Sabemos hoje que inclusive uma conveniente alimentação ou um determinado regime carecem de efeitos, se o papel que corresponde às bactérias intestinais não se desenvolver com normalidade.

 Formação de vitaminas por bactérias do intestino

É muito notável a este respeito o facto de as bactérias intestinais formarem a vitamina K, imprescindível para o processo de coagulação do sangue e que quando estão degeneradas não se encontram em condições de efectuar essa síntese. Se faltar na nutrição a vitamina K, que se obtém com verduras frescas, como espinafres, repolho, couve-flor e tomates, não conseguem as bactérias compensar, durante algum tempo, esta insuficiência, ao passo que com tais bactérias degeneradas se apresenta uma falta de vitamina K no fígado, e por isso um atraso na coagulação do sangue ou, inclusivamente, uma hemofilia.

Sabe-se, além disso, pelas experiências que a vitamina K dificulta o desenvolvimento de determinados microrganismos na corrente sanguínea, que já se descreveu, há vinte anos, e considerou germes cancerosos (Siphonospora polymorpha).

A vitamina B12 apresenta-se, também, como produto do metabolismo das bactérias intestinais. Depois da absorção pela parede intestinal é introduzida no fígado para desempenhar o papel de um elemento de maturação das células sanguíneas. É só na presença deste elemento activo que se efectuam, por exemplo, os processos mais importantes de produção de proteínas, sobretudo a transformação de moléculas proteicas de pouco valor noutras de grande riqueza, necessárias para a formação do núcleo celular. Para isto são necessárias as já classicamente conhecidas lecitinas, combinações complexas de glicerina e de ácido fosfórico, que normalmente se recebem com os alimentos, mas que pela cocção sofrem uma grande redução na sua eficácia biológica. Além da função da vitamina B12 na síntese das moléculas proteicas do núcleo celular, ainda intervém contra a formação excessiva de histamina. A histamina é uma substância que se origina abundantemente no metabolismo e que provoca reacções de hipersensibilidade do tipo do catarro do feno, asma bronquial, eczemas e outras manifestações. Finalmente, sabemos hoje que quatro por cento do cobalto contido na vitamina B12 produz efeitos antituberculosos, cujo significado não sabemos apreciar ainda devidamente. Só podemos pensar nas enormes consequências que claramente implicam.

Anti-intoxicações

 A possibilidade de vida nas bactérias intestinais depende de uma sã alimentação. Como pequenos depósitos, permitem elas cobrir as insuficiências que ocorram na produção das substâncias mais importantes do metabolismo químico, durante um grande lapso de tempo. Mas, por fim, também chegam a adoecer pelo aparecimento de deficiências, dando então lugar exclusivamente a produtos metabólicos tóxicos e de efeito prejudicial, que depois são absorvidos através do intestino e levados para a corrente sanguínea e para o fígado, activando todo o mecanismo defensivo. Este efectua a desintoxicação e destruição destas substâncias durante um certo tempo até ficar hipersensibilizado; ou então entorpece-se, enferma, ou finalmente deforma-se, se não receber ajuda no seu devido tempo, mediante matérias normais e compensadoras, como sejam alimentos sãos ou medicamentos.

Ordem de utilização dos alimentos crus

Não só é necessário saber que devemos utilizar alimentos frescos, como também quando temos de o fazer, isto é, em que proporção temos de consumir alimentos crus e cozidos. Deduz-se isto de numerosas experiências sobre produtos olorosos e aromáticos.

Quando se prepara uma refeição vulgar composta por um prato de sopa ou caldo, carne, batatas cozidas e legumes, ou também um pequeno almoço constituído por uma chávena de café ou de chocolate, pão com manteiga e marmelada, aumenta o número de leucócitos no sangue, passando num prazo de dez minutos, dos 6000-8000 normais por milímetro cúbico para 10 000, e num prazo de 30 minutos para 30 000, voltando no fim de 90 minutos ao normal. Este fenómeno é conhecido desde há quase um século e qualifica-se como leucocitose prandial (significando leucocitose o aumento de glóbulos brancos). Tal aumento de glóbulos brancos no sangue produz-se também em todas as irritações inflamatórias, especialmente nas enfermidades infecciosas, considerando-se em tal caso como uma reacção defensiva do corpo. Nada significa em contrário, o conceber a citada leucocitose como medida defensiva do corpo contra algo de estranho, isto é, como uma momentânea reacção inflamatória. Com isto coincide, evidentemente, uma comprovação, que mostra que a ingestão de alimentos crus, sem cocção, de vegetais, não leva a um aumento dos glóbulos brancos no sangue, isto é, não se apresenta a reacção inflamatória antigamente considerada normal. Esta reação não se produz, quando a comida cozida se segue à crua. Comprovaram que uns dez por cento, pelo menos, dos alimentos se devem consumir crus e antes dos cozidos, se se quiser evitar esta reação inflamatória.

 Origem da leucocitose defensiva

 Estas observações são hoje tão evidentes que a alimentação natural, viva e não consumida pela cocção, não é considerada estranha nem repulsiva, ao passo que os alimentos cozinhados supõem um regime insuficiente para provocar uma reacção defensiva do organismo.

A causa desta reacção defensiva encontra-se, na falta de fermentos e de substâncias aromáticas da comida cozida. Indica-se, assim, pela vez primeira, o importante significado das substâncias aromáticas naturais. Estas substâncias sumamente sensíveis ao calor são recebidas nas mucosas bucal ou faríngica e actuam através do sistema nervoso de modo inconsciente, provocando também a reacção dos glóbulos brancos.

Comentários