Doenças hepáticas e o seu tratamento geral

Encontramos hoje frequentes alterações nas várias funções hepáticas: secreção da bílis, defesa anti-infecciosa, funções anti-tóxicas, regeneração do sangue, processos de formação e desintegração no metabolismo de proteínas, açúcares ou gorduras. As possibilidades de perturbação do metabolismo do fígado, esse grande e complicado laboratório do corpo humano, são tão numerosas que provavelmente só as conhecemos numa pequena parte.
No regime de cura dai enfermidades hepáticas, ocupa hoje lugar de destaque a alimentação ou plano dietético oportunos.
Todas as doenças do fígado começam com um metabolismo defeituoso e o melhor modo de influir nesta função é a alimentação.
A maior parte dos actuais medicamentos de efeitos hepáticos, assim como todos os processos de tratamentos técnicos ainda muito apreciados, não reúnem condições para um regime de cura razoável e natural.
A alimentação rica em hidrocarbonatos, considerada anteriormente e durante muito tempo como a mais eficaz, com consumo adicional de glicose e insulina, ficou quase totalmente olvidada. Também não se pode admitir a recomendada pelos norte-americanos de quantidades extraordinariamente elevadas de proteínas.
Consideramos mais seguro o ponto de vista de que em todas as inflamações hepáticas agudas (isto é, em todas as hepatites), o melhor resultado obtém-se seguindo estas normas básicas:

1. Proteínas suficientes.
2. Abundantes substâncias açucaradas (hidrocarbonatos).
3. Pouca gordura.
4. Vitaminas abundantes.
5. Fermentos abundantes.
6. Líquidos abundantes.
7. Abundantes substâncias ricas em celulose.
8. Adição ínfima de sal.

Em todas as doenças crónicas do fígado (hepatose), entre as quais figuram as lesões celulares por bactérias e alimentos tóxicos ou excitantes (álcool), assim como as curas defeituosas depois de hepatites, isto é, a atrofia do fígado, temos de executar fundamentalmente as mesmas exigências dietéticas.
As células hepáticas necessitam, precisamente para a sua estruturação e funções próprias, de uma série de produtos valiosíssimos, especialmente os de desintegração da albumina com rico conteúdo de enxofre (aminoácidos, meteonina e cistina). Como, porém, especialmente na cirrose hepática, há o perigo de hidropisia abdominal, é necessário manter muito reduzido o consumo de líquidos e evitar o mais possível a adição de sal.

Fundamentos do regime dietético para o fígado

1. Frutas e sumos de fruta, devido ao seu conteúdo em vitaminas, minerais e fermentos bem como ao seu conteúdo em açúcar fácil de absorver e aos efeitos estimulantes do apetite, refrescantes e diuréticos. Ao mesmo tempo, a fruta cumpre a exigência de um abudante contributo de celulose com o mínimo de sal comum. Anteriormente, evitam-se os regimes de fruta, e sobretudo os de fruta seca, para os doentes hepáticos. Quando se aprendeu melhor o valor dietético da fruta fresca, passou esta então a fazer parte de todo o regime hepático, sobretudo para enfermidades crónicas do fígado.
Há que ter muito cm conta as nossas considerações sobre o consumo de bananas, uvas, cerejas e morangos.

2. Legumes e saladas. Cenouras, beterrabas, cerefólios e tomates e também, eventualmente, rábano doce, amargo e encarnado.
Em todo o caso, começar com sumos em primeiro lugar, e só depois com os legumes refogados e crus, finamente picados, seguindo-se finalmente as saladas, que já exigem algum esforço digestivo.
Os legumes secos (feijão, lentilhas, ervilhas amarelas) contêm muitas vezes, além da sua flatulência, material que se torna inassimilável para um fígado doente; devem suprimir-se absolutamente do regime hepático. Mais tarde, nunca se devem consumir sem segurelha, porque esta facilita a sua digestão ao eliminar as flatulências e estimular a função do pâncreas.
As balatas desempenham no regime hepático um papel essencial e justificado, sobretudo na forma de puré. Quer dizer, satisfazem na sua maior parte as exigências que impusemos para um regime hepático, permitindo além disso uma excelente combinação com o leite e a fruta.

3. O leite presta valiosos serviços devido ao seu elevado teor de albumina, ao seu considerável conteúdo em vitaminas e, ao mesmo tempo, ao seu equilibrado teor de gordura. Além disso, o leite é fonte de lecitina, uma substância activa para o sistema nervoso e o fígado, composta de ácidos gordos, ácidos fosfoglicéricos e colina. Esta última substância é um dos factores úteis para o fígado, que impede o seu engorduramento e resolve as alterações na função de desintoxicação do fígado.
Os produtos de leite azedo (leite coalhado, iogurte, kefir), assim como o leite desnatado e o soro de manteiga são preferidos ao leite completo pelo seu sabor refrescante. Em todas as formas de icterícia e de doenças do fígado reconhece-se o valor curativo do leite.

4. Os produtos cereais são muito úteis por causa do elevado conteúdo de hidrocarbonatos com as vitaminas B do
gérmen de cereais, de especial eficácia no fígado, e muitas outras matérias activas, sobretudo no emprego de papas de cereais e gérmens de trigo. Nos primeiros dias da hepatite aguda são convenientes os regimes de arroz só, arroz e banana, arroz e cenouras, e para a regeneração, mais tarde, papas de grãos de trigo, bananas, leite e cereais integrais.

5. O mel é muito importante, devido ao seu conteúdo de hidrocarbonatos e sobretudo de açúcar de fruta. Já nas indicações referentes ao mel se disse que com o consumo de açúcar de fruta se conseguem melhores resultados curativos do que com o do açúcar de uva (glicose). Está demonstrado, precisamente, que o fígado lesado não se encontra já cm condições de transformar a glicose em glicogénio. O organismo prefere, por todos os modos, efectuar essa função imprescindível com frutose, porque para isso utiliza uma cadeia de reacções totalmente distinta. O açúcar de fruta é transformado até 39 % cm glicogénio num processo metabólico que se efectua com rapidez dez vezes maior do que quando emprega glicose, com o que simultaneamente aumenta o aproveitamento dos demais tipos de açúcar, tornando menos necessária a formação de glicogénio no fígado, descansando assim
este órgão. O açúcar de frutas e sobretudo o mel constituem um importantíssimo factor no tratamento dietético das doenças hepáticas, quer sejam agudas quer sejam crónicas.

6. Ovos: Também são de apreciar na fase reconstrutiva, desde que, na medida do possível, sejam consumidos crus.
A clara bate-se em ponto de neve e a gema mistura-se na sopa ou no caldo. Só como passagem à nutrição normal é que se consome, uma vez ou outra, um ovo passado por água e finalmente uma omelete, que se prepara com clara batida e um pouco adoçada, à qual se acrescenta, quando está em ponto de neve, a gema. Absorve-se, mediante um papel secante limpo, a maior parte da gordura frita para facilitar a digestão. Depois,
é muito conveniente o consumo de fruta em forma de compota de maçã ou de arandos encarnados.

7. Gorduras: Na medida do possível basta a gordura contida no leite. Se nos doentes muito magros se deseja um aumento de peso, complementa-se a gordura de leite com 30 g diários, no máximo, de manteiga fresca, margarina vegetal da melhor qualidade ou azeite vegetal batido a frio (de oliveira, semente de girassol, linho ou noz). O consumo de gorduras cárneas deve ser absolutamente suprimido.

8. Carne: E a carne, decerto, uma valiosa portadora de albumina, mas contém por sua vez produtos da degradação metabólica (guanidina e outros), que sobrecarregam o fígado.
No regime hepático há que renunciar à carne, assim como a todos os enchidos e a fumados.

9. Devem proibir-se todos os excitantes, especialmente o álcool e o tabaco.

10. Devem preferir-se como bebidas, além do leite e sumos de frutas, infusões de roseira-brava, macela, hortelã-pimenta, e celidónia.

Normas práticas para um regime de cura

O regime curativo dos doentes de fígado tem de compreender, portanto, os seguintes alimentos:

1. Frutas, sumos de frutas, legumes e os seus sucos.
Há que ter em conta, principalmente, as bananas, uvas, cerejas, morangos, cenouras, beterrabas, batatas, abóboras, tomates, rábanos doces, amargos e vermelhos.

2. Cercais e os seus produtos, principalmente arroz e flocos de aveia, assim como o mel.

3. Leite, produtos lácteos (qualquer tipo de leite azedo e requeijão), ovos.

4. Azeite batido a frio, manteiga, margarina vegetal.

5. Infusão de ervas. O regime tem de ser o apropriado para o estado do doente e a fase da enfermidade, isto é, sob prévia prescrição do médico. Deve ser assim, de uma maneira geral:

1. No estado agudo: infusões, sumos, sopa de sêmola, leite, sopa de leite com arroz ou flocos de aveia, puré de batatas.

2. Depois de uma melhoria c a partir da segunda semana: produtos cereais (em forma de papas frescas de cereal ou depois de uma breve cocção). Fruta (fresca e cozida), guisados à base de balatas com legumes ou fruta, mel, marmelada.

3. Depois de uma maior melhoria e a partir da terceira semana: poucos ovos (batidos crus ou passados por água). A preparação deve ser sempre pobre em gorduras.

4. Durante muito tempo, regime completamente vegetariano com leite e requeijão.

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