Origem e formação das cáries

A teoria da formação local da cárie data dos últimos vinte anos do século xix, quando a bacteriologia começou a imprimir o seu cunho em todas as investigações c cm todas as ideias.
Trata-se da chamada teoria químico-parasitária da cárie de Miller e que, infelizmente, continua a ser a única aceite por muitos representantes da ciência. Diz esta teoria que a cárie se produz assim: os resíduos de alimentos que ficam entre os dentes (hidrocarbonatos) fermentam, produzindo ácidos. Estes privam os dentes das substâncias calcárias. O ponto enfraquecido fica exposto ao ataque das numerosas bactérias, sempre presentes na boca, que vão destruindo o dente.
Se fosse esta a causa única ou principal da cárie, bastaria a cuidadosa limpeza diária dos dentes e da boca com pasta dentífrica, escova de dentes e elixir para terminar em pouco tempo com a doença. Infelizmente, porém, não é assim, porque a cárie nem sequer pode ser contida por meios locais, tendo até aumentado consideravelmente no século passado, por muito que custe a Iodas as escovas e dentífricos, até ao ponto de hoje nos encontrarmos perante o facto de apenas cinco por cento dos habitantes dos países mais adiantados possuírem uma dentadura completamente sã. Outros investigadores, que tiveram também em conta os velhos, chegaram à conclusão de que em cada cem homens só há um que tem os dentes sãos.
Há motivos de sobra para considerar o aparecimento de um foco local de cárie como sintoma de uma lesão que afecta todo o corpo, como consequência de uma profunda perturbação do metabolismo ou um mal geral. Um dos mais notáveis conhecedores destes problemas, Dentista, confirma que a questão discutida durante dezenas de anos se o esmalte desenvolvido e duro continua a participar no metabolismo, isto é, se apresenta fenómenos de intercambio, a esta pergunta temos de responder no sentido afirmativo, embora se trate de um metabolismo muito limitado. Mas um órgão que participa no metabolismo é também influenciado por este. Naturalmente, a influencia é máxima no período de desenvolvimento, mas torna-se decisiva para a capacidade de resistência contra a cárie durante toda a vida. Por outro lado, não devemos ir tão longe como outros investigadores modernos e considerar que a cárie é só um processo interno, isto é, dependente do metabolismo, pois conhecemos numerosas observações e abundantes ensaios que tiveram lugar durante anos c que explicam as possibilidades de lesão local na dor de dentes. Mas em ambos os casos existe uma clara relação com a alimentação.
Uma alimentação indevida pode causar um dano local quando é retida na cavidade bucal como mais tarde, depois de absorvida pelo intestino, da mesma maneira que um alimento em todo o seu valor pode despertar forças de melhoria e de cura.

Influência da alimentação

Nos anos de alimentação escassa, durante a última grande guerra e nos tempos imediata-
mente posteriores, diminuiu em muitos países europeus a frequência da cárie, especialmente entre
pequenitos e as crianças da escola.
Naturalmente que se chega depressa à conclusão de que a alimentação da guerra tinha uma composição que aumentava a capacidade de resistência a cárie. Estas observações procedem da Alemanha, Suíça,
Noruega, França e Espanha.
Ainda não se podem pormenorizar quais os componentes do regime que terão causado aquela resistência, mas, na minha opinião, parece-me que foi essencial o uso do pão escuro ou integral que, como se sabe, oferece um teor consideravelmente mais rico de albumina, vitaminas, minerais e oligoelementos.
Investigando toda uma série de ilhas nos mares do Sul, compararam-se grupos de indígenas que não tinham estado em contacto com a civilização nem sobretudo com alimentos importados, com outros indígenas que já tinham «desfrutado» dos «benefícios» da civilização e que haviam consumido, durante muito tempo, alimentos importados (especialmente farinha branca, açúcar e doces). Naqueles indígenas que viviam no estado natural, todos os seus dentes haviam crescido normalmente e mostravam uma grande imunidade contra a cárie. Pelo contrário, entre os outros em contacto com a civilização encontraram-se muitos dentes mal colocados e desvios de mandíbulas. De cada mil dentes, trezentos estavam doentes.
Também é certo hoje que o açúcar refinado, desmineralizado, reúne perfeitas condições para fomentar a carie dentária. O açúcar branco ataca primeiramente os dentes desde o exterior.
Passa depois ao sangue e ao fígado, necessitando para a sua assimiliação de grande quantidade de minerais e de vitaminas do grupo B. A escassez assim provocada influi na formação de hormonas e fermentos e, por conseguinte, nas suas funções de importância vital. Como é lógico, a causa não reside apenas no açúcar, que não passa de um simples factor desencadeante.

Efeito das deficiências de flúor e magnésio

A alimentação defeituosa não implica apenas a insuficiência de cálcio, que se retira dos dentes ou se lhes não fornece, mas também, e sobretudo, a insuficiência de magnésio (marfim) e de flúor (esmalte). O marfim oferece a máxima percentagem em magnésio (cerca de 4 %) de todos os órgãos do corpo, e o esmalte a máxima percentagem em flúor (0,3-0,5 %).

E é precisamente o flúor que faz do esmalte a substância mais dura nos corpos dos animais e dos homens. É ao flúor que os dentes devem a sua forma precisa e terminada, não falando já de numerosas funções, umas conhecidas e outras ainda não bem conhecidas, desempenhadas pelo flúor e pelo magnésio em todo o corpo. Quantitativamente, encontra-se flúor sobretudo nas ervas e cercais. Se considerarmos a nossa farinha pura, branqueada e tratada com a ajuda de uma levedura química, temos de comprovar com tristeza que pouco contém de flúor ou de qualquer outro mineral. É praticamente só fécula pura e branca. O mesmo acontece com as nossas hortaliças cozidas, desmineralizadas ou só dotadas com muito sal. Repetem-se, por conseguinte, os mesmos erros de nutrição com que tropeçamos a cada passo que damos. Mas a verdade é que para a conservação dos nossos dentes temos necessidade de um pão que contenha todos os elementos do trigo, de verduras que não sejam fervidas, devendo ser consumidas cruas na medida do possível e fruta que nos sirva de fonte de minerais.
É necessária uma dentadura sã, porque os dentes cariados são causa de toda uma série de enfermidades infecciosas e digestivas. Os dentes perdidos por cárie são um sinal de alarme para fazermos uma revisão de todos os hábitos de vida, uma mudança definitiva, abandonando a alimentação antinatural e empobrecida.

Normas de aplicação prática

1. O consumo de açúcar natural (fruta, sumos, mel) é recomendável por causa dos seus materiais secundários e de protecção.

2. O farelo e os gérmens de cereais exercem, por causa do seu elevado teor cm mineral, vitaminas e albumina, uma influência protectora contra a cárie. Até onde for suportável, devem introduzir-se na alimentação, por conseguinte, o pão integral e os produtos inteiros da moagem, especialmente para as crianças.

3. Por experiências com animais, sabemos que a deficiência de albumina, entre muitas outras coisas, leva a insuficiências no esmalte. Por isso, são precisos, todos os dias, produtos lácteos de boa qualidade.

4. No período de desenvolvimento dos dentes (isto é, desde o nascimento até aos sete anos de idade), a criança deve primeiramente ser alimentada com o leite materno, com alimentação melhorada para a mãe, e, a partir do terceiro e quarto mês, com sumos crus de verduras e de frutas como alimento complementar e, mais tarde, com verduras cruas em suficiente quantidade.

Como o gérmen da formação da cárie se encontra na infância, não é de esperar já na idade madura uma cura de tal enfermidade, nem mesmo com um regime permanente vegetariano de cem por cento, embora se possa limitar assim o seu desenvolvimento. O cuidado sistemático dos dentes com uma pasta dentífrica eficaz, a abstenção de comer nos intervalos das refeições doces concentrados e o controle trimestral pelo dentista devem ser observados escrupulosamente.

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