Difusão da úlcera gástrica

O número de gastrites ou de úlceras de estômago entre os enfermos gástricos é enorme, assim como o de operados por essas enfermidades. No princípio deste século a úlcera gástrica era uma doença pouco frequente.
Mas desde o princípio da última guerra aumentou para mais do dobro o número de ulcerosos nos países europeus. Tendo pois em conta a grande extensão desta doença, que não deixa de ser perigosa, merece a pena estudar-lhe as causas e a possibilidade de as suprimir e, portanto, de lhes conseguir a cura.
As inumeráveis publicações da literatura da especialidade mostram a dificuldade de todos os problemas relacionados com a úlcera do estômago. Tem-se-lhe atribuído as mais variadas origens como, por exemplo, o comer muito depressa, ou demasiadamente quente, ou a congestão de pequenas ramificações arteriais por um coágulo de sangue ou uma colónia de bacilos deslocados do foco de uma enfermidade, ou a má irrigação sanguínea devida ao estreitamento dos vasos ou por arteriosclerose, sífilis ou tuberculose. Poderia continuar a lista dessas supostas causas. Depois de prolongada busca e de numerosas observações, chegou-sc às conclusões que a seguir se apontam, embora ainda não se conheçam todos os factores.

Aparecimento das úlceras do estômago

A úlcera do estômago (e também a do duodeno) aparecem em determinados pontos e precisamente um pouco adiante ou atrás da curvatura menor do estômago, da curvatura maior ou pouco antes do músculo que separa o estômago do duodeno (piloro). São precisamente os pontos em que se produz suco gástrico em abundância e que sob o ponto de vista mecânico se encontram mais sobrecarregados. Mas estes pontos são os mais sobrecarregados em todos os homens e contudo nem lodos eles sofrem de úlcera gástrica. É evidente que algo tem que sobrevir à fadiga mecâruca para que apareça uma úlcera gástrica. Mas se é apenas uma parte da humanidade que sofre de úlcera gástrica deve ter ocorrido algo que provoque em tais doentes uma «predisposição» para a enfermidade. Com isto entramos no confusamente enunciado conceito da «predisposição». Sabemos que esta pode ser congénita ou adquirida.
A congénita limita-se às pessoas de um determinado tipo físico como no-lo prova um facto continuamente verificado.
Os homens que sofrem de úlcera de estômago não são quase nunca os de «alimentação ao natural», os pícnicos, de abdómen e pescoço grossos, que gostam de tudo, que comem coisas muito quentes ou muito frias, e que seriam os primeiros suspeitos. São os leptossómicos (magros, de extremidades finas), leptossomoatléticos ou de constituição física atlética, homens de um sistema nervoso lábil (flutuante, débil): são os nervosos, sempre inquietos, de temperamento mercurial.

Factores anímicos

As pessoas destas características sofrem muitas vezes por motivos insignificantes (excitação, má digestão, excesso de trabalho, vida agitada) minúsculos espasmos das pequenas artérias, que às vezes persistem por bastante tempo. Por isso, entre outras coisas, a mucosa do estômago fica mal alimentada, incapacitada para a resistência e facilmente vulnerável na parte mecanicamente mais fatigada. Logo que nesse ponto se forme uma pequena ferida, fica a descoberto ao ser atacada pelo suco gástrico que começa imediatamente a actuar sobre a parede do estômago propriamente dita, começando a formação da típica úlcera gástrica.
À grande fadiga mecânica de determinados pontos gastrintestinais e à predisposição congénita, unem-se outros factores, os «factores impulsores». Entre estes figuram, naturalmente, a história do paciente (duras provas na sua vida), o modo de vida (irregularidade, pressa, subalimentação), a profissão (esforço físico ou graves responsabilidades) e as condições familiares e económicas.
A frase popular «a excitação causou-me dor de estômago», caracteriza acertadamente a grande influência dos factores anímico-ncrvosos. A maior parte das vezes são o enfado, a preocupação, a intranquilidade ou a insegurança económica que «atacam os nervos», o que em Medicina equivale a dizer que produzem um estado de tensão doentio nos centros nervosos do cérebro que, por sua vez, leva a falsas regulações e especialmente a espasmos dos vasos, ficando assim perturbada a irrigação sanguínea normal do tecido, provocando variações
de inflamação ou degeneração. Esta dependência psicofisiológica não pode ser hoje negada. A grande importância da conduta anímica e do modo de reagir do chamado sistema nervoso vegetativo salienta-se grandemente segundo o critério científico. Sob o ponto de vista cirúrgico exige-se, para conseguir um êxito duradouro depois da operação da úlcera de estômago, inclusivamente uma mudança consciente e completa
do modo de vida, seguindo um critério totalmente novo.

A úlcera do estômago, «angina gástrica»

Assim, pois, a úlcera é expressão e sintoma de uma irrigação sanguínea insuficiente, provocada por uma falsa manobra do sistema nervoso central de regulação dos vasos. Tal como acontece no estômago e no intestino, essa perturbação nervosa da irrigação sanguínea pode produzir-se noutros órgãos, como o coração, os pulmões ou os órgãos cerebrais.
A diferente localização depende da debilidade congénita dos órgãos ou das imperfeições por eles adquiridas. Muitas vezes se apresentam perturbações da irrigação sanguínea em vários tecidos ou órgãos como sintomas de uma perturbação geral. O Doutor sublinha que a úlcera do estômago corresponde na sua origem e desenvolvimento às da «angina de peito», doença esta produzida por uma irrigação insuficiente dos vasos cardíacos. E, logicamente, propõe para a úlcera do estômago a denominação de «angina gástrica».

Conjunto de causas da ulcera de estômago e duodeno

1. A especial fadiga mecânica em determinados pontos do estômago e do duodeno.
2. Uma falsa regulação do sistema nervoso central, que pode voltar a produzir-se sob diferentes circunstâncias (entre elas uma alimentação insuficiente).
3. Perturbações da irrigação sanguínea em diversas zonas de tecidos e órgãos.
4. Localização das perturbações por influências hereditárias e constituição física apropriada. A isso conduzem as perturbações circulatórias na área do estômago.
5. Nas perturbações da irrigação sanguínea dentro do estômago, o suco gástrico com maior teor de ácidos digere o mesmo estômago no ponto da mucosa lesionado, formando-se assim a úlcera.

Efeitos da hereditariedade e da constituição

Estes aspectos escapam, quase completamente, a toda a influência pela nossa parte. Nisto consiste a grande missão do médico assistente, que já de há anos conhece a família na sua constituição física e nas suas predisposições. Pode, portanto, aconselhar os membros da família quanto à alimentação, modos de viver e quanto à profissão a escolher. E infinitamente mais valioso evitar possíveis enfermidades, vencê-las, extirpá-las antes que se desenvolvam, do que curar quando já se tenham produzido grandes lesões.

Efeito da acidose

O execesso de ácidos no suco gástrico (ponto 5), extraordinariamente doloroso para alguns indivíduos, não se pode neutralizar quimicamente, por exemplo com bicarbonato.
A mucosa do estômago produz diariamente uma quantidade determinada de ácido clorídrico sumamente importante para a digestão, em especial da albumina. O teor normal do suco gástrico em ácido clorídrico oscila entre 0,2 e 0,5 9íi. O mecanismo de produção do ácido clorídrico nas paredes do estômago é qualquer coisa que ainda não foi possível averiguar directamente.
Uma abundância de suco gástrico regista-se, quase sempre, nas diversas variedades da gastrite c nas úlceras do estômago e do duodeno. Menor quantidade de ácidos produz em geral o cancro do estômago, e quase nenhum ácido a anemia perniciosa, que hoje nos parece menos perigosa.
Uma defeituosa composição do suco gástrico não só é sintoma de uma lesão local na parede do estômago, como é também indício de uma perturbação geral. O sangue carregado com um consumo excessivo de albumina, gordura e sal ou produtos ácidos do metabolismo, não está equilibrado com os órgãos de eliminação, apesar de estes aumentarem a sua actividade, e por isso procura escapes de urgência e aumenta a eliminação de ácidos do estômago. Quem além disso possuir um sistema nervoso facilmente excitável, que irritando-se ou em tensões nervosas permanentes reage contraindo os vasos, está predisposto para a digestão das paredes do seu próprio estômago, isto é, para a formação de uma úlcera gástrica.

Indicações curativas gerais

Depois de comprovada esta dependência torna-se evidente que em tais circunstâncias se deve deixar de subministrar matérias que facilitem ao metabolismo produtos principal- mente ácidos e que não basta tragar uma pastilha ou tomar uma colher de qualquer sal que actue como alcalino para absorver os ácidos, o que só incita o estômago a produzir mais ácidos na próxima vez. O estômago não é um órgão isolado, mas que se encontra em íntimo contacto com o conjunto do organismo e dele dependendo. Para conseguir um tratamento, há que ter em conta estas relações. Os alimentos empregados razoavelmente devem servir de meio de cura.
As perturbações na irrigação sanguínea (ponto 3) encontram-se estreitamente ligadas com a quebra de direcção do sistema nervoso centra! (ponto 2). Ambos precisam de muito calor, muita tranquilidade (a princípio tem de se ficar no leito rigorosamente) e descontracção tanto física como espiritual. O equilíbrio anímico do doente é inclusivamente de momento a questão principal.
O cismar em questões sem solução deve chegar ao seu ponto final. O doente tem de confiar em homens que o compreendam, que lhe aplanem o seu talvez áspero caminho pela vida. É só quando cessam a inquietação interior e a pressa de todos os dias, que se pode produzir a distensão física e espiritual.
Resumindo, as exigências do tratamento são: calor, descanso físico, distensão espiritual, regime de cura ou dietético que tonifique o estômago e o intestino.

Regime de cura do estômago

Fase I — Dias 1 a 7:

O regime deve efectuar-se do melhor modo possível, começando com um jejum rigoroso (ou pelo
menos, só interrompido por infusões ou sumos).
Na medida do possível deve observar-se como mínimo um dia, se o estado geral do doente o permitir.
A um dia de jejum, à base de infusões ou de sumos, durante o qual só se consumirá em cinco vezes infusão de hortelã-pimenta, maccla ou chá negro-claro ou sumo de cenouras, devem seguir-se seis dias de sumos, papas de semente de linho, arroz, milho, trigo, aveia, cevada ou centeio, temperadas com um pouco de água do mar ou adoçadas com mel.
Os sumos de fruta tomam-se muito diluídos em água na proporção de 1:1 ou mesmo mais, para que não produzam a menor irritação. Se as papas de cereais forem bem suportadas, passa-se imediatamente à papa de bananas e leite, preparada com leite quente e bananas frescas, podendo enriquecer-se com gérmens de trigo. Para a regulação digestiva aplicar irrigações de macela quente.

Fase II —Dias 8 a 17:

Completam-se e enriquecem-se os alimentos com puré de batata e manteiga fresca sem aquecer, gema
de ovo, nata, flocos e germes de trigo. Também ameixas secas humedecidas ou óleo de linho para regular
as deposições.

Fase III —Dias 18 a 27:

Completam-se os alimentos com vegetais refogados, verduras frescas raladas e eventualmente um pouco de carne tenra. Para regular as deposições, figos secos humedecidos ou fruta fresca.
Se o doente suportar sem novidade as três fases, passar paulatinamente para uma alimentação totalmente vegetariana, durante muito tempo.

Alimentos proibidos

Enquanto durar a cura dietética há que suprimir em absoluto:

1.Toda a espécie de carnes (excepto vitela, galinha e pombo para a fase III).
2.Toda a espécie de peixes (excepção feita para o peixe não gordo na fase III).
3.Toda a espécie de salsichas e carnes fumadas.
4.Todas as gorduras quentes ou duras.
5.Todos os legumes secos, couves e rabanetes.
6.Todos os estimulantes (álcool, tabaco, etc.) e as bebidas que contenham ácido carbónico.
7.Toda a bebida ou comida muito fria ou muito quente.

Há que ter em conta que tudo se deve tomar lentamente e bem mastigado. Neste caso, mais do que em nenhum outro, se cumpre o dito de que «uma boa mastigação equivale a uma meia digestão». A comida diária deve ser distribuída cm cinco tomadas: às 7, às 10, às 13, às 16 e às 19 horas.
Numerosos medicamentos novos destes últimos anos não têm conseguido desprestigiar o grande valor do velho e comprovado tratamento baseado no repouso, no calor e no regime para os pacientes de úlceras do estômago ou do duodeno, nem sequer relegá-lo para segundo plano.

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