O homem não é «naturalmente» carnívoro

Até meados do século XIX, o consumo de carne na Europa era bastante baixo. Por exemplo, no ano de 1810 era apenas de 18 quilos por cabeça. Por influência da teoria de que a capacidade de rendimento do homem pode aumentar com o consumo, considerável de albumina, especialmente mediante o consumo de carne, aumentou o consumo até que, ao começar o século xx, subiu para 56 quilos por pessoa e por ano.
O grande desenvolvimento industrial simultâneo, tornando mais escasso o tempo disponível, pode também ter influído na preferência cada vez maior por pratos de carne de preparação rápida e que satisfazem o apetite, quando se comem.
Quanto à questão de ser possível haver uma alimentação completa prescindindo em absoluto de carne fresca e que realmente se possa classificar como tal, basta expor aqui uma vez mais, e como resumo, que não só e possível mas muito conveniente. As quantidades correntes de carne e de albuminas na nossa alimentação ordinária excedem geralmente a necessidade real. Seria de importância nada despiciente para a própria economia nacional conhecer o facto positivo de que a carne se pode suprimir da nossa alimentação sem prejuízo para a saúde, incluindo a do homem que realiza trabalhos pesados. Proporciona efectivamente a carne energias extraordinárias? Tem-se pensado frequentemente e repetido com insistência que a alimentação na base de carne torna os homens extraordinariamente capazes de rendimento e fortes. A tribo hunsa, que vive na região do Himalaia, e sem dúvida um exemplo vivo de que a renúncia à alimentação cárnea não só não prejudica como também traz vantagens que, ao que parece, ainda não conhecemos suficientemente. O nutricionista já em 1928 havia exposto as observações do médico, que este fizera durante a sua permanência de nove anos na região do Himalaia de Hunsar-Nagar, estudando as características dos seus habitantes. Os hunsas não comem nenhuma
carne, alimentando-se de vegetais e leite. As suas habitações são primitivas e os meios de aquecimento são muito elementares.
E, contudo, os hunsas são um dos povos mais belos, fortes e resistentes da terra. A sua capacidade de resistência contra as doenças contagiosas é assombrosa. Não há entre eles úlceras do estômago, nem apendicites, dispepsias ou catarros intestinais.
O nutricionista, que recentemente deu informações minuciosas sobre a tribo hunsa, compara os hunsas com os esquimós da Gronelândia oriental, cujo modo de vida estudou a expedição Hoygaard, em 1936. Escreveu ele: «Mais de 90 % da alimentação destes esquimós consiste em carne, quase sempre crua. A alimentação é muito natural, mas não corresponde às condições humanas. Não dá lugar a insuficiências consideráveis de vitaminas ou sais minerais, mas dá lugar à ingestão diária de 299 g de albumina animal, em lugar de 60 g, 169 de gordura em lugar de 50 a 80 g c só 122 g de hidrocarbonatos, em lugar de 400 a 500 g. Estes homens parecem sãos, activos, alegres, amantes do trabalho e inteligentes, quando muito jovens, isto é, entre os vinte e os vinte e cinco anos; mas quando chegam aos trinta e cinco anos perderam a sua juventude, a sua energia e a sua capacidade e mostram-se cansados, entorpecidos e gravemente arterioscleróticos. A duração media da vida destes homens é só de vinte e sete anos e meio. Compare-se tudo isto com a juventude, o aspecto, a capacidade e a actividade dos hunsas, de idade muito avançada. Isto demonstra, pois, que a alimentação hunsa, crua e vegetal, de cereais integrais com suficiente aditamento de verduras, é própria para as características naturais do organismo humano, e não o é, pelo contrário, a alimentação dos esquimós.»

Prejuízos de uma alimentação exclusivamente cárnea

Com respeito à questão tantas vezes levantada de se a carne é prejudicial como alimento, só podemos dizer por agora que, como todos os meios de alimentação e cura, constitui um problema de quantidade e de qualidade. Em determinadas manifestações de anemia pode inclusivamente ser curativo em alto grau o suco de carne fresca prensada (Czerny).
Se se passar de uma quantidade determinada, que é muito diferente de indivíduo para indivíduo, então o consumo de carne provoca prejuízos, sobretudo se a carne for o alimento principal.
O nutricionista pós alguns jovens estudantes em regime exclusivo diário de 1500 g de carne, 30 g de pão branco e limonada. Passados dez dias foi possível verificar, mediante o microscópio capilar, nos vasos capilares, grandes mudanças e lesões. Os vasos, normalmente finos e delgados, em forma de forquilha, tinham-se tornado grossos, enroscados e grandes, tendo inclusivamente rebentado alguns pontos, de modo que o sangue de hemorragia tinha invadido os tecidos imediatos. Exteriormente, a pele parecia avermelhada, não num tom encarnado vivo, mas mais azulado, ao passo que as gengivas apresentavam-se inchadas e sangrentas. Foi necessária uma prolongada abstinência de carne para a rectificação das alterações naqueles vasos.
Já há mais de vinte anos que o nutricionista indicava que o que aqui se efetuou a título experimental com
exagerado regime de carne durante dez dias, se realiza em milhões de casos com a alimentação baseada no consumo de carne durante dez anos.

O papel da carne na origem de enfermidades orgânicas

O nutricionista observou em estudantes sãos depois de um regime de carne um aumento da tensão arterial, prova
também efectuada por outros investigadores no caso de alimentação excessiva, sobretudo na base de carne. Sabe-se também que a actividade da tiróide é estimulada pela nutrição com carne. As pessoas que já sofrem de excessiva secreção desta glândula — doença chamada hipertiroidismo — podem, por uma alimentação abundante de carne, piorar no seu estado clínico, ou responder insuficientemente a um remédio.
O excesso de alimentação, especialmente de carne, é de importância essencial, sobretudo na arteriosclerose, no prejudicial aumento de volume sanguíneo e de glóbulos vermelhos (policitemia), na trombose e embolia, na formação de cálculos biliares, no aparecimento da psoríase, na hipertrofia prostática e no desenvolvimento de miomas na matriz, assim-como provavelmente também no cancro. Um papel, cuja importância não podemos menosprezar, é desempenhado pela alimentação com carne na gota, nos cálculos renais (sobretudo uráticos)
e na provocação de reacções alérgicas. Pelo contrário, o regime vegetariano dificulta ou elimina a maioria dos estados alérgicos. Ao passo que nos povos que consomem muita carne a apendicite não é precisamente rara, a verdade é que só isoladamente se apresenta nos povos de regime lácteo-vegetal.

Efeitos psíquicos do consumo excessivo de carne

É muito fácil de compreender que o consumo excessivo de carne com a sua influência considerável na condição física não deixa de influir nas funções nervosas, nas reacções anímicas e nas forças psíquicas. O Nutricionista diz que a abundância em gordura e carne na alimentação estimula a actividade da tiróide e incrementa a excitabilidade do sistema nervoso simpático, de modo que os povos de alimentação carnívora são de temperamento violento e agressivo, ao passo que os povos que se alimentam de vegetais são tranquilos e pacíficos. Os puericultores têm observado que a alimentação sobrecarregada de carne, ovos e leite, isto é, produtos portadores de albumina animal, implica um considerável nervosismo.

Inconvenientes sanitários

É fácil citar a opinião de autoridades médicas que não li na carne nenhum elemento essencial para a nossa alimentação, e consideram, contudo, que as grandes quantidades consumidas regularmente constituem para os seus utentes um grave prejuízo.
Temos, além disso, de dizer que não se podem passar por alto as condições em que a carne é adquirida. No Verão é preferível prescindir totalmente da carne se não dispusermos de frigorífico, até o momento em que vai ser usada. Há que evitar na medida do possível a carne picada, porque às vezes é de origem duvidosa ou está ilegalmente conservada por meios químicos, como o sulfito de sódio, que dá à carne picada, mesmo armazenada durante bastante tempo, um fresco colorido vermelho, mas sem poder impedir que as bactérias da putrefacção se multipliquem. Quando se inicia o desenvolvimento das bactérias, na realidade a carne já está podre. Portanto, no consumo da carne picada tem esta de ser preparada fresca. Estreitamente ligada com a questão que estamos tratando, encontra-se a do emprego do sal vulgar, porque o uso de alimentos cárneos sem sal é dificilmente aceite pelo paladar. Também não podemos olvidar que todo o emprego de calor na preparação culinária modifica e prejudica os alimentos proteínicos, ao passo que o consumo a cru faz correr o risco de se receberem parasitas intestinais (ténia).

Influência da dieta cárnea sobre o espírito

Em todos os tempos e por todas as religiões importantes têm sido apresentados argumentos morais baseados em claros e oportunos motivos para nos afastarmos do consumo da carne. É fruto de velhíssima experiência expresso no mundo misterioso do sobrenatural e do metafísico, que quem quiser penetrar nele tem de sacrificar a sua sensualidade, neste caso o prazer da sua nutrição errada. Não nos será possível um aperfeiçoamento autêntico, puro, espiritual e religioso, sem ascetismo, isto é, naquilo que aqui nos interessa, sem nos privarmos de carne e de alimentos semelhantes. Recordo apenas o exemplo de Gandhi, cuja conduta e doutrina contra toda
a espécie de violências e cuja grande capacidade de contemplação interior dependia, em última análise, da sua maneira de viver. Tomava duas vezes por dia fruta, arroz, nozes e um pouco de leite. É, da mesma sorte, típico da religião budista, dirigida para a vida pacífica, espiritual e de contemplação interior, o proibir o consumo da carne.
Encerra muita verdade a diferenciação já muito divulgada entre o Ocidente extrovertido (dirigido para o mundo exterior), e o Oriente introvertido (dirigido para o mundo interior), cuja explicação se há-de encontrar no facto de os povos ocidentais serem de preferência carnívoros, e os orientais serem sobretudo vegetarianos. Encontramos a mesma relação entre a alimentação e a formação físico-espiritual expressa na fórmula de que nos povos carnívoros predominam as reacções do sistema simpático, a actividade da tiróide, o desenvolvimento físico e o temperamento decidido e agressivo, ao passo que nos povos vegetarianos desempenham principal papel as hormonas das glândulas vago-trópicas (insulina, colina) caracterizando-se o seu modo de ser pela tranquilidade e o pacifismo.
Para a influência dietética em estados de esgotamento nervoso e excitação psíquica, assim como para a cura de doenças nervosas, a primeira e mais eficaz medida será suprimir a carne durante muito tempo, assim como para as pessoas sãs é de primeira importância a máxima prudência.

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